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Saúde mental: Que adultos queremos “amanhã”?

Comemorou-se a 10 de outubro o Dia Mundial da Saúde Mental, este ano sob o lema Os Jovens e a Saúde Mental num Mundo em Mudança". Este dia, instituído em 1992 pela Federação Mundial de Saúde Mental, tem por objetivo aumentar o conhecimento público sobre a saúde mental e despertar o seu interesse para problemáticas cada vez mais prevalentes na sociedade pós-moderna e que carecem de particular atenção por parte dos decisores políticos e dos gestores de saúde.

O tema deste ano foi centrado nos jovens, eles que pela sua natureza e caraterísticas são particularmente suscetíveis de vivenciar alterações da sua saúde mental, em grande parte pelas diversas mudanças físicas, emocionais e sociais que experimentam ao longo da adolescência. Esta fase, que se carateriza por uma reformulação da identidade pessoal, pode estar na origem de um intenso sofrimento. Na adolescência ocorrem perdas relativamente a uma imagem infantil que não mais voltará e os pais enfrentam a necessidade de mudar a sua atitude educativa e relacional para com os filhos. É precisamente esta conjuntura que pode conduzir aos primeiros distúrbios emocionais, como a ansiedade e/ou a depressão, bem como a comportamentos de risco como o abuso de drogas e/ou de álcool. Importa ressalvar que os distúrbios emocionais acarretam custos muito significativos e que são uma das principais causas de doença e incapacidade entre os adolescentes, afetando o seu funcionamento social e escolar.

Porém, os jovens da chamada “Geração Z” (nascidos entre meados dos anos 1990 e 2000) enfrentam outro grande desafio à sua saúde mental: a pressão das redes sociais. Segundo dados do estudo “Os portugueses e as redes sociais 2016”, promovido pela Marktest, os jovens entre os 15 e os 24 anos de idade passam, em média, mais de duas horas por dia em “conversas” e “partilhas” online. Se pensarmos que as redes sociais os expõem a um fluxo contínuo de informação de consumo rápido, então é seguro afirmar que estas podem potenciar situações de ansiedade que, não raras vezes, acabam por conduzir à depressão. De igual modo, Francisco Sampaio, investigador no CINTESIS e docente na Universidade Fernando Pessoa, destaca que “a superficialidade das relações que se estabelecem online leva a que os jovens vejam limitada a sua capacidade de desenvolver resiliência face às adversidades, podendo a sua personalidade ficar marcada por uma reduzida tolerância à frustração”.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), metade das doenças mentais começa por volta dos 14 anos e três quartos aos 20 anos de idade. Ainda de acordo com dados epidemiológicos avançados pela OMS, cerca de 10 a 20% dos adolescentes experienciam problemas de saúde mental, muitos dos quais permanecem por diagnosticar e tratar, facto este que se parece dever ao estigma e falta de conhecimento ainda associado à doença mental.

Portugal não escapa a esta realidade e, por cá, o cenário é também desolador no que à saúde mental entre os mais jovens diz respeito. Assim, a título de exemplo, no relatório do Programa Nacional para a Saúde Mental, publicado em outubro de 2017 pela Direção-Geral da Saúde com dados relativos a 2015, consta que a prevalência da toma de psicofármacos atinge os 23,2% em jovens com 18 anos de idade. Ainda segundo o mesmo relatório, nos últimos anos registou-se um aumento do número de crianças e adolescentes que recorreram aos Serviços de Urgência por depressão, ansiedade e tentativas de suicídio ou comportamentos autolesivos. No caso concreto da depressão, um estudo recentemente divulgado pela Escola Superior de Enfermagem de Coimbra aponta mesmo para uma taxa a rondar os 26% de adolescentes com sintomatologia depressiva moderada a grave. A nível global, e de acordo com o estudo “Ação global acelerada para a saúde dos adolescentes: Orientações para apoiar a implementação nacional”, publicado em maio de 2017 pela OMS com dados relativos a 2015, a autolesão (com ou sem intencionalidade suicida) foi mesmo apontada como a terceira causa de morte no mundo em jovens entre os 15 e os 19 anos de idade, apenas antecedida pelos acidentes de viação e infeções respiratórias.

A prevenção da doença mental começa com o conhecimento e compreensão dos primeiros sinais e sintomas de alerta. No entanto, não se consegue detetar o que não se conhece e, por conseguinte, é imperativo que se desenvolvam ações de promoção da saúde mental tendo como alvo não só os jovens, mas também quem com eles convive, como sejam os familiares e professores. Além disso, é importante garantir a existência de sistemas de apoio na família, na escola e na comunidade, na medida em que os adolescentes com problemas ao nível da saúde mental são particularmente mais vulneráveis à exclusão social, à discriminação, ao estigma, às dificuldades escolares, a comportamentos de risco, a problemas de saúde física e a violações dos direitos humanos.

Ultrapassado o período de crise financeira em Portugal, no qual a possibilidade de investimentos se encontrava limitada pela escassez de recursos, e encontrando-se o país num momento de maior prosperidade económica, crê-se que é chegada a hora de prestar atenção às necessidades existentes no setor da saúde e de concretizar a tão propalada reforma da Saúde Pública. Assim, importa que finalmente se realize um investimento significativo na prevenção primária e, em particular, em programas de promoção da saúde mental que permitam reduzir a taxa de incidência de doenças mentais entre os mais jovens. De igual modo, parece essencial a alocação de mais recursos humanos, bem como uma organização mais eficiente da Saúde Escolar, que permita aos jovens dispor verdadeiramente dos meios necessários para dar resposta às necessidades de cariz desenvolvimental com as quais se vão deparando. Enquanto Sociedade estamos certos de que os jovens em risco, ou já com doença mental, cidadãos historicamente sem voz, receberiam com muita satisfação o anúncio de um compromisso, por parte do atual Governo e, particularmente, do Ministério da Saúde, para com o investimento na promoção da saúde mental e na prevenção primária da doença mental.

Catarina Teixeira, Soraia Cunha & Francisco Sampaio (Sociedade Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental)
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